28/06/2021

A requalificação e ampliação da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) esteve “pendurada” cerca de nove meses no Tribunal de Contas. Após o desbloqueio, o projeto que tem assinatura do arquiteto Eduardo Souto de Moura pode finalmente avançar, depois de ter sido retomado em 2017, pelo atual Executivo Municipal. Vai permitir triplicar a capacidade de depósito da biblioteca, resolvendo um problema que há muito tempo se coloca. Nesta fase, o orçamento para a empreitada ronda os 17 milhões de euros.


O convite formulado pela Câmara do Porto a Eduardo Souto de Moura que, em 1994, foi o responsável pela obra da biblioteca infantil e do auditório da BPMP, teve de ultrapassar a resistência do Tribunal de Contas, que argumentava “direitos de autor” passados e dizia que o município não podia optar por ajuste direto ao mesmo arquiteto, empurrando a decisão para o lançamento do concurso público.


“Não foi nada fácil. A Câmara do Porto teve de pedir pareceres de professores da Universidade de Coimbra”, reconheceu Eduardo Souto de Moura, que esta manhã apresentou, em reunião de Executivo Municipal, o programa-base do projeto requalificação e ampliação da Biblioteca Pública Municipal do Porto, que a pandemia também atrasou em cerca de quatro meses.


Fechado o esboço inicial do projeto, sobre o qual a Câmara tem ainda oportunidade de se pronunciar (quer relativamente os custos previstos quer emitir uma opinião mais precisa sobre determinados aspetos do projeto), o gabinete de Souto de Moura já prepara o estudo prévio, que irá ainda preceder o anteprojeto e o projeto de execução.


“Já estou a fazer o estudo prévio. Pedi aos engenheiros para materializarem as opções técnicas. Assim já é possível ter um orçamento mais rigoroso”. Orçamento esse, agora nos 17,275 milhões de euros, que poderá vir a ser reajustado, admitiu Souto de Moura. “Neste momento, os materiais de construção aumentaram 30%. Só o alumínio, que pretendo utilizar, aumentou 70%”, explicou.


No projeto de arquitetura de Souto de Moura procura-se resolver um problema fundamental da BPMP: o défice crónico de espaço de armazenamento de livros e de outro tipo de espólio da Biblioteca Municipal. Para isso, será construída “uma torre”, que aproveitará o espaço em altura, sem descurar a significativa ampliação projetada para as traseiras do edifício principal, voltado para o Jardim de São Lázaro. As soluções que o arquiteto galardoado com o Prémio Pritzker apresentou preveem, assim, a demolição e construção de algum edificado que, no passado, foi acrescentado nas traseiras da biblioteca, e que “escondeu a fachada original”. Há ainda a possibilidade de o novo edifício previsto para esta área “poder crescer mais dois pisos”. Por agora, tal como está, o projeto garante 54 quilómetros de depósito.



A manutenção dos claustros, sistema que agrada a Souto de Moura por permitir a entrada de “luz e ventilação”, é outro dos aspetos que o arquiteto pretende ao máximo potenciar no projeto, porém o croqui final ainda está fechado. A solução será sopesada com o município, clarificou.


No projeto cabe ainda “uma galeria técnica à volta de toda a biblioteca”; uma área para entrada de camiões e monta-cargas, com um posto de desinfeção dos livros; um espaço para o Gabinete de Som do Museu da Cidade, que poderá ter entrada autónoma, além de uma cafetaria.


Fundamentalmente, Souto de Moura quer que a Biblioteca Pública Municipal do Porto tenha, após esta obra, tenha uma vivência “menos austera”, com fluidez na circulação dos percursos, aproximando-a do conceito das bibliotecas contemporâneas.


Projeto agrada a todo o Executivo Municipal


Rui Moreira destacou que a intervenção irá “triplicar a capacidade da biblioteca”, permitindo pôr termo “aos livros encaixotados” que povoam o espaço. Embora no orçamento municipal estejam inscritos 12 milhões de euros para esta obra, considera que “ainda vamos a tempo de retificar”.


O presidente da Câmara do Porto realçou também que a requalificação e ampliação da BPMP irá permitir “uma melhor fruição e melhores condições a quem lá trabalha”, e sublinhou ainda a inovação de “tratar os livros à entrada”, bem como a área de cafetaria, enquanto espaço de permanência que já estava pensado.


Do PS, o vereador Manuel Pizarro declarou que o “Partido Socialista apoia inteiramente a requalificação da biblioteca”, até porque considera que estes espaços continuam a ser fulcrais num sociedade digitalizada, estando hoje provado que “não passaram de moda”. Antecipando que “o custo final da obra poderá ser superior a 20 milhões de euros”, Manuel Pizarro reiterou total apoio, “independentemente do ciclo político” que venha a seguir, sustentando que a empreitada resolve um “problema essencial” de armazenamento e que alia a tradição de um edifício histórico à sua utilização contemporânea.


Já Miguel Seabra, em representação do PSD (que nesta sessão substituiu o vereador Álvaro Almeida), também saudou Souto de Moura pela “qualidade” do seu trabalho. Concordando que o custo lhe parece “bastante conservador”, porque o aumento dos preços da construção “é um problema que veio para ficar”, para o vereador social-democrata “o custo/benefício é mais que justificado para este investimento”.


Ilda Figueiredo, vereadora da CDU, lamentou o tempo perdido desde 2003, altura em que o projeto de requalificação foi suspenso pelo antecessor de Rui Moreira. Frisou, também, que “triplicar a capacidade de depósito é fundamental” e disse compreender o custo da obra. “Não me assusta o investimento”, afirmou Ilda Figueiredo, lembrando “a importância do ponto de vista nacional” da Biblioteca Pública Municipal do Porto.


O tempo de execução da obra de requalificação e ampliação da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) será de cerca de três anos, estima Eduardo Souto de Moura.

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